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Estudo técnico · Inteligência econômica

Raízen: destruição de valor e anatomia de uma crise

Como a maior produtora de etanol do mundo transformou crescimento em destruição de valor — e o que esse caso revela sobre os desafios de alocação de capital no Brasil.

AutoresIsmael SantosErik Alencar de Figueiredo
PublicaçãoMarço de 2026
Leitura18 min
Edição originalPDF, 16 páginas
Capa do estudo Raízen: destruição de valor e anatomia de uma crise

Síntese Executiva

-94%Queda desde IPOR$ 7,40 → R$ 0,46
R$ 22,36 biPrejuízo LTMÚltimos 12 meses
R$ 70,01 biDívida TotalEra R$ 24,44 bi
R$ -1,13 biPatrimônio LíquidoPL negativo — insolvência técnica

R$ 255 bilhões em receita. R$ 22 bilhões em prejuízo acumulado. Patrimônio líquido negativo. A Raízen — controlada por Shell e Cosan — formalizou pedido de Recuperação Extrajudicial em março de 2026, encerrando um ciclo de cinco safras em que a empresa destruiu valor econômico sistematicamente, mesmo quando apresentava lucro contábil. O problema nunca foi faturamento: foi investir R$ 70 bilhões em capital que jamais retornou acima do seu custo.

R$ -7,3 biEVA Acumulado5 safras de destruição
5,3%ROIC Última Safravs WACC de 14,8%
3,6%Margem EBIT Máx.Teto em 5 safras — abaixo da Selic
25,5xEV/EBITDADívida domina o EV
RAIZ4 — cotação histórica (R$)

A ação a R$ 0,46 não é uma anomalia de mercado. É a precificação racional de uma empresa com patrimônio líquido negativo, ROE de -123% e um capital investido de R$ 53,3 bi que vale, na bolsa, apenas R$ 4,76 bi — 9 centavos por cada real empregado.

Cronologia da Crise

Juros baixos, demanda global por E2G, açúcar em alta. Em 2021, tudo favorecia a Raízen. Cinco anos depois, cada uma dessas premissas se inverteu — e a empresa, que havia apostado tudo na expansão, não tinha margem de segurança para absorver nenhuma reversão. O resultado foi uma escalada de compromissos financeiros que a operação não conseguiu honrar.

  1. 2021 IPO na B3 a R$ 7,40/ação. Captação de ~R$ 7 bi. Planos de E2G e expansão. Dívida já era de R$ 24 bi (consolidada).
  2. 2022 Receita salta 71% para R$ 196 bi. EBITDA Aj. de R$ 10,7 bi. Dívida cai para R$ 22 bi. Selic em 13,75%.
  3. 2023 Receita recorde: R$ 246 bi. EBITDA Aj. R$ 15,3 bi — melhor safra. Dívida sobe para R$ 29 bi. Lucro cai para R$ 2,4 bi.
  4. 2024 Receita recua para R$ 220 bi. Lucro cai para R$ 521 Mi. Dívida: R$ 36 bi. Ação cai abaixo de R$ 2,00. Lançamento do 'Plano de Transformação' (Nov/24).
  5. 2025 Primeiro prejuízo anual: -R$ 4,26 bi. Dívida explode para R$ 58 bi. No 3T26: impairment de R$ 11,1 bi, PL negativo, dívida R$ 70 bi. Going concern. Ação: R$ 0,46.
  6. 2026 Fev/26: Rebaixamento de ratings. Contratação de assessores para reestruturação. Mar/26: Pedido de Recuperação Extrajudicial.

O padrão: A Raízen apostou em investimentos de longo prazo (E2G, cogeração, infraestrutura), financiados com dívida de custo variável atrelada ao CDI, em um país que elevou a Selic de 2% para 14,25% em quatro anos. Quando o ciclo de juros subiu e os preços das commodities recuaram, a dívida total saltou de R$ 24 bi para R$ 70 bi — e a empresa ficou presa em uma armadilha de capital da qual não conseguiu sair.

A Ilusão do Crescimento

R$ 114,6 bilhões. Depois R$ 255,27 bilhões. A receita da Raízen cresceu 123% em cinco safras. Mas faturar não é lucrar — e lucrar não é criar valor. A margem EBIT nunca superou 3,60%. A margem líquida oscilou entre –1,67% e 1,78% — menos do que a poupança em qualquer ano do período. O crescimento, sem margem, foi uma ilusão contábil.

Receita vs. dívida líquida vs. valor de mercado — safras 20/21 a 3T26 (R$ bi)

A divergência entre as linhas é a síntese visual da crise: a receita cresceu 123%, a dívida líquida saltou de R$ 17,8 bi para R$ 55,3 bi (+211%) e o valor de mercado colapsou de R$ 59 bi (IPO) para R$ 4,76 bi (–92%). O mercado precificou a destruição antes da contabilidade reconhecê-la.

Receita, EBIT e margem EBIT por safra — Receita Líquida e EBIT (R$ bi)
Receita, EBIT e margem EBIT por safra — Margem EBIT (%)

O lucro líquido foi positivo nas quatro primeiras safras (R$ 1,5 bi, R$ 3,5 bi, R$ 2,4 bi e R$ 0,5 bi), mas era residual frente ao capital empregado de R$ 30–53 bilhões. Na melhor safra (2021/22), a margem líquida foi de apenas 1,78% — menos do que a poupança. Na safra 2024/25, veio o primeiro prejuízo anual: R$ 4,26 bi. Nos últimos 12 meses, o prejuízo acumulado atingiu R$ 22,36 bi.

Lucro / prejuízo líquido por safra (R$ bi)
Indicador2020/212021/222022/232023/242024/25
Receita (R$ bi)114,6196,3245,8220,4255,3
Lucro Bruto (R$ bi)8,012,715,315,711,8
EBIT (R$ bi)3,66,68,17,94,3
Margem EBIT (%)3,16%3,35%3,29%3,6%1,69%
Lucro Líquido (R$ bi)1,53,52,40,5-4,3
Margem Líquida (%)1,33%1,78%0,99%0,24%-1,67%
Dívida Total (R$ bi)24,422,329,435,658,0
PL (R$ bi)12,522,322,922,118,2

Valores em R$ bilhões. Enc. exercício: 31/03 de cada ano (ano-safra). Fonte: Planilha por Segmento — RI Raízen (CVM/B3).

EVA — A Destruição Sistemática de Valor

R$ -7,3 biEVA Acumulado (5 safras)Destruição líquida de valor
-3,1 p.p.Spread Médio ROIC–WACCRetorno abaixo do custo em todas
R$ 53,3 biCapital Investido AtualPL + Dívida Líquida
EVA, NOPAT e spread por safra (R$ bi)
SafraNOPATCap. InvestidoWACCROICSpreadEVA
2020/212,3930,310,5%7,9%-2,6-0,79
2021/224,3436,212,8%12,0%-0,8-0,30
2022/235,3443,414,0%12,3%-1,7-0,74
2023/245,2341,813,5%12,5%-1,0-0,41
2024/252,8553,314,8%5,3%-9,5-5,04

O spread ROIC–WACC foi negativo em todas as safras: o retorno sobre o capital investido nunca superou o custo desse capital. Na melhor safra operacional (2023/24, ROIC de 12,5%), o retorno ainda ficou 1,0 pontos abaixo do WACC. Na safra 2024/25, o spread colapsou para –9,5 p.p. — o maior nível de destruição da série.

ROIC vs. alavancagem (DL/Equity) — safras 20/21 a 3T26 — ROIC (%)
ROIC vs. alavancagem (DL/Equity) — safras 20/21 a 3T26 — DL/Equity (%)

O ROIC caiu de 7,9% para 5,3% — e tornou-se negativo no LTM 3T26. No sentido oposto, a alavancagem (DL/Equity) saltou de 142% para 193%. Com o PL negativo no 3T26, a razão tornou-se indefinida. As linhas se abrem como uma tesoura: retorno caindo, endividamento subindo.

Dívida total vs. margem EBIT — o paradoxo do crescimento — Dívida Total (R$ bi)
Dívida total vs. margem EBIT — o paradoxo do crescimento — Margem EBIT (%)

A dívida cresceu 137% enquanto a margem EBIT caiu de 3,16% para 1,69%.

EV/EBITDA histórico — de múltiplo premium a distressed (x)

O EV/EBITDA reportado saltou de 9,2x para 25,5x no LTM 3T26 — reflexo do colapso do EBITDA reportado (R$ 2,36 bi) enquanto o EV se mantém inflado pela dívida líquida de R$ 55,3 bi. O múltiplo ajustado (5,9x) é menos extremo, mas ainda acima da média histórica de ~4x.

Market cap vs. capital investido — o mercado precifica destruição (R$ bi)
Market cap vs. capital investido — P / Capital Investido (x)

O índice Price/Invested Capital (P/CI) caiu de 1,95x para 0,09x. O mercado avalia a Raízen em R$ 4,76 bi — apenas 9% dos R$ 54,2 bi de capital investido. Em outras palavras, o mercado precifica a destruição de ~91% do capital empregado.

O mecanismo central da crise: O WACC subiu de 10,5% para 14,8% (puxado pela Selic), enquanto o ROIC caiu. É assim que uma empresa com receita de R$ 255 bilhões pode valer apenas R$ 4,76 bi na bolsa.

A Armadilha de Capital

R$ 55,32 biDívida LíquidaRelease 3T26
5,3xDL/EBITDA Aj.Alavancagem crítica
R$ 7,65 biCusto Dívida 9M+94% vs ano anterior
R$ -11,32 biFCO 9M 25'26Fluxo operacional negativo
Evolução da dívida total e dívida líquida (R$ bi)

A dívida total cresceu de R$ 24,44 bi para R$ 70,01 bi — um aumento de 186% em quatro anos. Mas o dado mais revelador não é o estoque: é o fluxo. Nos 9 meses da safra 2025/26, a Raízen captou R$ 29,15 bi em dívida nova (+51% vs ano anterior) e amortizou R$ 16,45 bi. A diferença entre captação e amortização evidencia o ciclo de refinanciamento forçado: dívida nova para pagar dívida antiga, com custo crescente.

Custo da Dívida — A espiral

  • Custo da dívida bruta (9M): R$ 7,65 bi — alta de 94%
  • CDI médio subiu de 11% para 14,9%
  • Resultado financeiro consumiu R$ 7,2 bi em 9M
  • Isso representa 4,1% da receita do período

Fluxo de Caixa — A realidade

  • FCO (9M): R$ -11,32 bi — a operação consumiu caixa
  • FCLA (9M): R$ -5,08 bi — nada para acionistas
  • Captação de R$ 29,15 bi para manter-se operando
  • EBITDA Aj. de R$ 8,39 bi não cobre os juros

Dados de fluxo de caixa referem-se ao acumulado 9M da safra 25'26 (abr–dez/2025). Não foram anualizados: em contexto de crise com impairments e reestruturação, a projeção linear distorceria a leitura. Receita, EBITDA e lucro utilizam a base LTM (últimos 12 meses) quando disponível.

Insolvência técnica: O patrimônio líquido tornou-se negativo em R$ 1,13 bi no 3T26. O VPA é de R$ -0,11/ação. O P/VPA de -4,18 confirma: cada real investido na ação compra um passivo, não um ativo. A empresa depende exclusivamente da capacidade de rolar dívida — capacidade que se esgotou com os rebaixamentos de rating em fevereiro de 2026.

O Release 3T26 — O Que os Números Revelam

⚠ Going Concern — Incerteza Significativa de Continuidade Operacional

O Release de Resultados 3T 2025/26 (13/02/2026) contém a nota mais grave que uma empresa listada pode emitir: "Incerteza significativa relacionada à continuidade operacional". A administração reconhece que "a execução operacional, por si só, já não é suficiente para mitigar o desequilíbrio existente da estrutura de capital". É a confissão de que os resultados operacionais — por melhores que sejam — não podem salvar a empresa do peso da dívida.

Impairment de R$ 11,1 bilhões — o que significa
ItemR$ bi%Significado
IR/CS Diferidos4,7743%A empresa não espera gerar lucro tributável — confissão de prejuízo prolongado
Tributos a Recuperar2,8526%Créditos fiscais cuja realização tornou-se incerta
Imobilizado2,0318%Plantas industriais e ativos de E2G perderam valor
Intangível (ágio)1,4913%Ágio de aquisições sem recuperabilidade — destruição de M&A
Total11,14100%

O que a empresa destaca

  • "Avanços operacionais mesmo em ambiente adverso"
  • "R$ 600 Mi em ganhos de eficiência"
  • "Redução de R$ 3 bi em investimentos"
  • "Desinvestimentos de R$ 5 bi"
  • "Produção de E2G dobrou (+111%)"

O que os números revelam

  • Eficiência de R$ 0,6 bi vs custo de dívida de R$ 7,7 bi
  • E2G de 105 mil m³ vs investimento acumulado de R$ 15+ bi
  • Desinvestimentos cobrem apenas 7% da dívida total
  • Prejuízo de R$ 19,8 bi em 9M — 33x a eficiência capturada
  • Controladores sem compromisso vinculante de capital

O Release 3T26 é, na prática, o prólogo da Recuperação Extrajudicial. A linguagem de "avaliação de alternativas econômico-financeiras preliminares" e a contratação de assessores financeiros e jurídicos em fevereiro de 2026 confirmam que a empresa perdeu a capacidade de se auto-financiar. O "Plano de Transformação" chegou tarde demais: a dívida já havia se tornado impagável com o EBITDA disponível.

Commodities e Bioenergia

A Raízen opera em dois segmentos com perfis de risco opostos: Distribuição de Combustíveis (rede Shell) — margem baixa, mas estável — e Açúcar, Etanol & Bioenergia (EAB) — margem volátil, dependente de commodity e clima. A crise é, em essência, uma crise do segmento EAB amplificada pela alavancagem financeira.

EBITDA por segmento — 3T safra 2025/26

Distribuição — O negócio que funciona

  • EBITDA Aj. subiu 72% no trimestre
  • Volume vendido cresceu 12%
  • Margem estável, previsível, geradora de caixa

EAB — O vetor da crise

  • EBITDA recuou 34% — menor moagem e preços
  • Impairment concentrado em ativos de E2G
  • Investimentos bilionários sem retorno compatível
Preço do açúcar (Sugar #11) vs. margem bruta da Raízen — Açúcar Médio (US¢/lb)
Preço do açúcar (Sugar #11) vs. margem bruta da Raízen — Margem Bruta Raízen (%)
27,4 ¢/lbPico do AçúcarNov/23
14,1 ¢/lbPreço AtualMar/26 — mínima em 4 anos
−49%Queda desde o PicoSuperávit global
Sugar #11 — preço mensal (abr/24 → mar/26) (US¢/lb)
Preço do açúcar vs. lucro líquido da Raízen — Açúcar Médio (US¢/lb)
Preço do açúcar vs. lucro líquido da Raízen — Lucro Líquido (R$ bi)
SafraAçúcar (¢/lb)Var. (%)Margem BrutaLucro (R$ bi)Contexto
2020/2114,5+42%7,0%1,52Recuperação pós-pandemia
2021/2218,9+30%6,5%3,49Alta global — restrições de oferta
2022/2320,1+6%6,2%2,44Preço elevado, custos pressionados
2023/2423,8-17%7,1%0,52Pico e reversão — Índia retém exportações
2024/2518,2-24%4,6%-4,26Colapso — superávit global, queda de 40%

O paradoxo revelador: Na safra 2023/24, com o açúcar no pico histórico (média de 23,8 ¢/lb), o lucro da Raízen caiu para apenas R$ 0,52 bi — evidência definitiva de que o custo da dívida e os investimentos em E2G consumiam toda a vantagem do preço elevado. A empresa perdeu sua "proteção natural" de commodity justamente quando mais precisava dela. Com o açúcar a 14,1 ¢/lb e superávit global projetado, a pressão sobre o segmento EAB tende a persistir.

Estrutura Financeira

O modelo Fleuriot classifica a saúde financeira de uma empresa a partir de três variáveis do balanço: o CDG (se as fontes permanentes cobrem os ativos de longo prazo), a NCG (se o ciclo operacional gera ou consome caixa) e o Saldo de Tesouraria (T), que é a diferença entre os dois. Quando o CDG é negativo e o T só se sustenta por dívida, a estrutura é classificada como "Alto Risco" — exatamente onde a Raízen se encontra desde 2023/24.

Evolução CDG, NCG e Tesouraria — safras 2020/21 a 3T26 (R$ bi)
SafraCDG (R$ bi)NCG (R$ bi)T (R$ bi)Classificação
2020/212,5-1,94,4Excelente
2021/225,0-1,86,8Excelente
2022/230,5-3,64,1Excelente
2023/24-3,5-13,29,7Alto Risco
2024/25-7,0-25,118,1Alto Risco
3T26-19,0-28,19,1Alto Risco

Nota: T = Caixa – Dívida CP (dados exatos RI Raízen/CVM). CDG e NCG estimados a partir da composição do balanço patrimonial consolidado, com separação entre itens cíclicos (operacionais) e erráticos (financeiros). Cálculos: Altoris. Fonte: RI Raízen — Planilha por Segmento.

Interpretação da Estrutura Financeira

A ilusão do saldo de tesouraria positivo

O Saldo de Tesouraria (T) permaneceu positivo ao longo de toda a série. Isso pode, a princípio, sugerir solidez financeira — mas é uma ilusão contábil. O T positivo foi sustentado por duas fontes frágeis: (1) captação massiva de dívida de longo prazo que inflou o caixa (R$ 29,15 bi captados apenas nos 9M 25'26); e (2) NCG fortemente negativa — os fornecedores financiam a operação com prazos estendidos. Se os fornecedores encurtarem prazos (reação natural ao going concern), a NCG se normaliza e o T colapsa, migrando a estrutura para o tipo "Péssima" (CDG–, NCG+, T–).

A trajetória da estrutura financeira

  • 2020/21–2022/23: Estrutura "Excelente" — CDG positivo (IPO injetou capital), NCG favorável (distribuidora). Janela para investir com responsabilidade.
  • 2023/24: Ponto de inflexão — CDG vira negativo. Investimentos em E2G e expansão superaram as fontes permanentes. Estrutura migra para "Alto Risco".
  • 2024/25–3T26: Deterioração acelerada — CDG de –R$ 7 bi para –R$ 19 bi. PL negativo. A empresa depende 100% de credores para operar.

Risco iminente: migração para "Péssima"

  • Going concern emitido → fornecedores tendem a exigir pagamento antecipado
  • NCG se normaliza (de –R$ 28 bi para próximo de zero) → T colapsa
  • Sem CDG positivo para absorver, a empresa entra em insolvência operacional
  • Resultado: dependência total de rolagem de dívida para sobreviver dia a dia

A transição de "Excelente" para "Alto Risco" em apenas três safras é a síntese da crise: o IPO deu capital, a gestão o consumiu em ativos que não retornaram, e a dívida mascarou o déficit estrutural até que o going concern tornou a fragilidade visível.

Caminhos para Retomada

A reestruturação da Raízen não é uma questão de eficiência operacional — é uma reengenharia de balanço. As quatro frentes abaixo precisam ser executadas simultaneamente, mas com prioridade clara: sem as duas primeiras, as demais são irrelevantes.

1.

Prioridade imediata — Recompor o PL

  • Conversão de dívida em equity — único caminho para PL positivo
  • Aporte dos controladores (Shell/Cosan) ou investidores estratégicos
  • Desinvestimentos de ativos não-core (R$ 5 bi anunciados, R$ 3,1 bi recebidos)

Meta: CDG positivo → fontes permanentes cobrindo ativos de longo prazo

2.

Prioridade imediata — Desalavancar

  • DL/EBITDA Aj. de 5,3x → meta: ≤ 3,0x
  • Reduzir ~R$ 25 bi em dívida líquida (haircut + conversão + vendas)
  • Alongar perfil com custo inferior à Selic + 3%

Meta: custo da dívida inferior ao EBITDA gerado

3.

Médio prazo — Criar valor (EVA > 0)

  • Focar em Distribuição (ROIC > WACC) e sair de E2G deficitário
  • Zero CAPEX sem retorno verificável acima do custo de capital
  • Spread ROIC–WACC positivo = empresa criando valor
4.

Contínuo — Proteger o ciclo operacional

  • Manter prazos com fornecedores estratégicos (Shell, Petrobras)
  • Otimizar estoques e acelerar recebíveis
  • NCG negativa é vantagem competitiva — precisa ser preservada

Diagnóstico Final

Sete vetores convergiram para produzir o caso mais emblemático de destruição de valor no mercado de capitais brasileiro da última década:

VetorEvidência
1. EVA negativo em 100% das safrasSpread médio de -3,1 p.p. · R$ -7,3 bi destruídos
2. Dívida triplicou, retorno caiuR$ 24,44 → 70,01 bi · ROIC: 7,9% → 5,3%
3. Margens abaixo da taxa livre de riscoEBIT máx: 3,60% · Líquida máx: 1,78%
4. Selic de 2% a 14,25%WACC: 10,5% → 14,8% · Dívida indexada ao CDI
5. Açúcar colapsou 41%23,8 → 14,1 ¢/lb · No pico, lucro foi de R$ 0,52 bi
6. FCO negativo, rolagem forçadaFCO 9M: R$ -11,32 bi · Captação: R$ 29,15 bi
7. Insolvência técnicaPL: R$ -1,13 bi · Impairment: R$ 11,1 bi · Going concern

Cenário Base — Reestruturação Negociada

  • Conversão de dívida em equity + aporte dos controladores
  • Venda de ativos non-core e separação de segmentos
  • Haircut de 30–50% para credores subordinados

Cenário Adverso — Recuperação Judicial

  • Falha na negociação extrajudicial com credores
  • Diluição massiva ou zeragem dos acionistas
  • Ruptura na cadeia sucroenergética nacional

"Uma empresa com receita de R$ 255 bilhões não entrou em crise por falta de escala — entrou por crescer sem criar valor. O EVA foi negativo em todas as cinco safras. O ROIC nunca superou o WACC. A dívida triplicou enquanto o retorno caía. O preço da ação — de R$ 7,40 a R$ 0,46 — não é uma anomalia. É a tradução precisa, pelo mercado, de uma destruição sistemática de capital."

— Altoris Estratégias de Valor · Março 2026