Executivos devem abraçar a reestruturação financeira
- Ismael Santos

- 6 de mai. de 2024
- 4 min de leitura
É fácil esquecer que a tarefa mais importante de um alto executivo é maximizar o valor do negócio. Isso é alcançado aumentando o lucro operacional sem capital adicional, investindo em projetos com retorno superior ao custo do capital, ou realocando ou liquidando capital de atividades de baixo retorno.
Diante desse desafio, uma das iniciativas potencialmente mais poderosas é a reestruturação financeira. Os administradores podem potencializar o uso desse instrumento e promover a criação de valor através da redução do custo de capital e do uso mais eficiente dos ativos.
Entre as várias formas de alterar a propriedade dos ativos e patrimônio de uma empresa — a essência da reestruturação financeira — incluem-se parcerias, conversões de dívidas em ações, cisões, joint ventures, ofertas públicas de ações, programas de distribuição de ações a empregados, recapitalizações e LBOs (Leveraged Buyouts), sendo esses últimos ainda pouco explorados.
Todas essas estratégias produzem uma mudança no lado direito do balanço da empresa, sem que, pelo menos inicialmente, haja alteração no lado esquerdo dos negócios ou ativos da companhia.
O grande mistério está no modo como uma mera alteração da estrutura financeira ou de propriedade pode aumentar o valor dos ativos registrados no outro lado do balanço.
Reestruturações financeiras bem executadas transformam a gestão corporativa, maximizando o retorno e a saúde financeira das empresas a longo prazo. Altos executivos financeiros e de planejamento devem dominar a lógica e as aplicações dessas reestruturações para melhorar o desempenho corporativo.
Neste artigo, explorarei a estratégica utilização de capital de terceiros, um recurso subutilizado e cercado de equívocos. Discutirei como essa abordagem pode não apenas elevar significativamente o valor das companhias, mas também servir como uma ferramenta essencial na reestruturação financeira.
O uso agressivo de capital de terceiros claramente demonstra os benefícios de diversas formas de reestruturação financeira. Por exemplo, uma recapitalização financiada por dívida pode criar valor de várias maneiras, como os benefícios fiscais de substituir capital próprio por capital alheio, entre outros, conforme demonstrado no exemplo abaixo. Há, porém, muitas outras.

A obrigação de pagar dívidas junto a terceiros faz com que seja removida a quase irreversível tentação de superinvestir o fluxo de caixa excedente em negócios não vantajosos ou de realizar aquisições com ágio. O valor é criado porque o mercado espera que haverá poucos erros na alocação de capital quando este se tornar escasso.
A terceira vantagem do endividamento agressivo é que ele facilita a concentração da propriedade nas mãos de quem mais influencia o valor da empresa. Por exemplo, adquirir 10% de um negócio avaliado em R$ 100 milhões custaria R$ 10 milhões com capital próprio. No entanto, se a empresa se endividasse em R$ 80 milhões e redistribuísse esse montante aos acionistas, os interessados precisariam de apenas R$ 2 milhões para obter a mesma participação, tornando a aquisição mais acessível e aumentando a liquidez do negócio.
A quarta razão da vantagem do endividamento está em que a obrigação de pagá-lo geralmente estimula as vendas de ativos ou de negócios. Uma vez livres de ativos subperformantes, os administradores estarão em condições de concentrar atenção e recursos escassos sobre os ativos que remanescerem, elevando, portanto, o seu valor.
A última razão é principalmente psicológica. O endividamento gera uma percepção de crise financeira, mesmo em negócios saudáveis, impulsionando mudanças cruciais. Isso cria um senso de urgência que substitui a complacência burocrática, prioriza a gestão de fluxo de caixa sobre lucros aparentes e elimina investimentos em áreas menos rentáveis.
Muitas empresas cometem erros ao apostar em reestruturações bruscas, colocando todos os seus ativos em risco contra suas dívidas. Essa estratégia não apenas expõe a empresa ao risco de um desastre financeiro caso as coisas não saiam como planejado. O desafio principal para a alta administração é saber como utilizar de forma eficaz o poder da reestruturação financeira, evitando seus excessos.
Além de buscar uma estrutura ótima de capital, aquela proporção que equilibra a redução do custo total dos capitais com o risco da alavancagem financeira, aconselho duas alterações na prática corporativa tradicional:
Descentralização da estrutura de capital: em vez de concentrar o endividamento na matriz com uma estrutura homogênea, o capital deve ser alocado seletivamente nas várias unidades de negócio. Utilizar capital de terceiros para operações maduras e capital próprio para negócios novos ou imaturos minimiza riscos e maximiza os benefícios do mercado de crédito.
Estrutura de capital dinâmica: em vez de manter uma abordagem estática, as empresas deveriam adotar um endividamento agressivo com o objetivo de quitar rapidamente essas dívidas. A substituição progressiva do endividamento por capital próprio geralmente resulta na criação de valor adicional.
Uma terceira alternativa, que combina a descentralização com a estrutura dinâmica pode ser considerada através das “LBOs internas”, uma ferramenta capaz de apoiar essa estratégia e impulsionar a criação de valor, mas falarei sobre isso em outro artigo.
Há evidências de que empresas que se reestruturam voluntariamente apresentam melhor desempenho e criam mais valor do que aquelas cuja reestruturação é imposta por terceiros, motivada por pressões externas. Além disso, essas empresas tendem a desfrutar de maior integridade e uma reputação mais favorável. Os altos executivos deveriam prontamente e com entusiasmo abraçar a reestruturação financeira, em vez de adotá-la de maneira relutante.
Alcançar e manter uma estrutura de capital adequada é um processo contínuo, vulnerável às flutuações constantes do mercado, condições fiscais e competitividade. Estas mudanças podem rapidamente tornar qualquer estratégia financeira obsoleta. O esquema a seguir demonstra como essas condições influenciam a tomada de decisão dos administradores, auxiliando-os em suas escolhas.




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